Eleições 2026: disputa Lula x Flávio Bolsonaro entra em fase decisiva marcada pelo escândalo do filme Dark Horse

Por Diego Velázquez 8 Min de leitura

Pesquisas mostram Lula na liderança após caso envolvendo ex-banqueiro preso abalar a pré-campanha do senador, que ainda tenta recuperar terreno

A corrida presidencial de 2026 entrou em junho numa fase de forte turbulência política, com pesquisas de intenção de voto apontando vantagem crescente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato que concentra o voto oposicionista. O cenário, que até meados de maio mostrava uma disputa tecnicamente empatada no segundo turno, ganhou outro contorno depois que o The Intercept Brasil revelou áudios e mensagens trocados entre Flávio e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, preso pela Polícia Federal por operar um suposto esquema de fraudes que gerou rombo estimado em R$ 47 bilhões ao Fundo Garantidor de Crédito. O conteúdo das conversas mostrava o senador cobrando o financiamento da cinebiografia de seu pai, Jair Bolsonaro, intitulada “Dark Horse”, orçada em R$ 134 milhões. O episódio se transformou rapidamente num dos maiores desgastes da pré-campanha bolsonarista e recolocou em debate uma questão central para o eleitor brasileiro: até que ponto escândalos políticos de grande repercussão conseguem alterar o resultado de eleições disputadas?

O que revelaram os áudios e como Flávio reagiu ao escândalo

As mensagens obtidas pelo Intercept indicam a existência de uma negociação em que Vorcaro se comprometeu a financiar o filme sobre Jair Bolsonaro. Em áudio divulgado, Flávio dizia ao banqueiro: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”, mensagem enviada em 16 de novembro de 2025, um dia antes de Vorcaro ser preso enquanto tentava deixar o país. A sequência de eventos criou um problema de imagem que a pré-campanha do senador admitiu ser grave. Intercept Brasil

A gestão de crise concentrou-se na tentativa de normalizar a captação de recursos privados para a produção, com a narrativa de que o financiamento de Dark Horse seria uma operação limpa, oriunda de “dinheiro privado” e sem vantagens oferecidas em troca. Porém, a própria cronologia dos fatos demonstra a fragilidade dessa versão, visto que as primeiras investigações sobre as fraudes do Banco Master vieram a público entre agosto e setembro de 2025, antes das mensagens trocadas com Flávio. Em nota divulgada após a revelação, o senador não negou os contatos, mas afirmou que foi apenas um filho buscando patrocínio privado para um filme privado sobre seu pai. Agência Pública

Flávio Bolsonaro decidiu trocar o marqueteiro de sua pré-campanha após o escândalo vir a público. Deixou a função o publicitário Marcello Lopes, amigo do pré-candidato e ex-policial. A decisão refletiu a avaliação interna de que as primeiras entrevistas concedidas após a crise não foram suficientes para reverter o dano de imagem acumulado desde a divulgação dos áudios. A pré-campanha passou a trabalhar com monitoramento diário das intenções de voto para medir o impacto real do escândalo junto ao eleitorado. O TEMPO

Como as pesquisas captaram o impacto nas intenções de voto

Os levantamentos divulgados ao longo de junho apresentaram quadros convergentes sobre o efeito do caso Dark Horse. O Datafolha mostrou que Lula lidera o primeiro turno com 41% das intenções de voto, contra 31% de Flávio Bolsonaro. A pesquisa indica que, mesmo após tentativas de conter os danos, Flávio não conseguiu recuperar terreno: na pesquisa anterior ao escândalo, os dois também apareciam com 40% e 31%, mas a diferença, que havia chegado a nove pontos, agora aparece em dez pontos no primeiro turno. Brasil 247

Na pesquisa BTG/Nexus divulgada em 29 de junho, realizada com 2.009 eleitores entre os dias 26 e 28, Lula registra 42% das intenções de voto no primeiro turno, enquanto Flávio Bolsonaro aparece com 34%. No segundo turno, a disputa permanece mais apertada: Lula aparece com 47% das intenções de voto, contra 44% de Flávio Bolsonaro, com a diferença entre os dois passando de cinco para três pontos percentuais em relação à rodada anterior. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais, o que tecnicamente mantém o segundo turno como uma disputa em aberto. Nexus

O CEO da AtlasIntel, Andrei Roman, avaliou que seria pouco razoável esperar que o eleitor ignore o tema, considerando que a corrupção é a maior preocupação do eleitorado brasileiro, afetando mais de 70% dos entrevistados ao longo de uma década. Para ele, dentro de um tema de maior relevância possível, o episódio representa um fato de grande impacto, dada a relação entre o candidato presidencial e o articulador de uma suposta grande fraude do sistema financeiro. Analistas também apontam que a narrativa bolsonarista, historicamente centrada no combate à corrupção, enfrenta agora uma contradição difícil de administrar diante de seu próprio eleitorado. CNN Brasil

O que ainda pode mudar até outubro

Apesar do desgaste de Flávio Bolsonaro, o quadro eleitoral está longe de estar definido, e os próximos meses prometem novas movimentações em todos os campos. Pesquisa BTG/Nexus indica que, entre os entrevistados, 69% dizem que a decisão já está tomada e não vai mais mudar, enquanto outros 29% afirmam que ainda podem mudar o voto. Entre os eleitores dos dois principais candidatos, o grau de consolidação é semelhante: 74% dos eleitores de Lula dizem que a decisão está tomada, e o mesmo percentual aparece entre os eleitores de Flávio Bolsonaro. Isso significa que quase um quarto dos eleitores de cada um dos principais candidatos ainda pode ser conquistado ou perdido. Congresso em Foco

A aposta de dirigentes do centrão é de que há mais por vir no caso Dark Horse. Embora Flávio afirme que os contatos com Vorcaro se limitaram ao pedido milionário para bancar o filme, aliados demonstram desconfiança sobre novos desdobramentos da investigação. Além disso, o campo governista também foi atingido em junho, quando uma operação da Polícia Federal mirou Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo no Senado, suspeito de ter recebido pagamentos de Daniel Vorcaro, o que pode redistribuir parte do desgaste de imagem. O TEMPO

Para o eleitor acreano e brasileiro que acompanha a disputa, o cenário revela uma eleição que vai muito além das pesquisas: é um teste sobre o quanto os eleitores estão dispostos a tolerar escândalos de ambos os lados e sobre quais temas, afinal, vão definir os votos em outubro. Os próximos meses de pré-campanha, os debates e os desdobramentos das investigações em curso tendem a redesenhar o mapa eleitoral antes do período oficial de campanha.

Fontes consultadas:

Compartilhe este artigo