Do centro de Rio Branco à floresta: como o Acre tenta conectar cada escola pública à internet até o fim de 2026

Por Diego Velázquez 10 Min de leitura

Com laboratórios de informática, tablets e sinais de satélite chegando por barco a comunidades isoladas, o estado avança na inclusão digital, mas ainda enfrenta desafios impostos pela realidade amazônica

Em 2019, apenas 42% das escolas urbanas de Rio Branco tinham acesso à internet. Sete anos depois, esse número chegou a 100% nas escolas estaduais da capital, e o governo do Acre persegue uma meta que parecia improvável para um estado marcado por grandes distâncias, rios que substituem estradas e comunidades indígenas em regiões de floresta fechada: conectar todas as escolas públicas da rede estadual à internet até o final de 2026. O avanço é real e documentado pela própria Secretaria de Estado de Educação e Cultura (SEE), mas o caminho que ainda resta percorrer revela o quanto a inclusão digital em contexto amazônico exige muito mais do que cabos e antenas. Exige barcos, planejamento logístico e soluções tecnológicas específicas para uma realidade que nenhuma outra região do país enfrenta da mesma forma.

Para as famílias acreanas cujos filhos estudam em escolas rurais ou indígenas, a pergunta prática é direta: quando a internet de qualidade vai chegar até a escola do meu município, e o que ela vai mudar na vida dos meus filhos?

O salto digital que já aconteceu e os números que mostram o caminho percorrido

Os dados da SEE revelam uma transformação expressiva em menos de uma década. Em 2019, a internet nas 270 escolas rurais do Acre representava apenas 18,40% de cobertura. Em 2026, esse percentual subiu para 69,40%, um salto significativo diante dos desafios geográficos impostos pela floresta. Também em 2019, somente 9% das 141 escolas indígenas tinham conexão digital. Hoje, 57% dessas unidades já desfrutam de internet. Para escolas que até poucos anos atrás operavam completamente desconectadas do mundo digital, esses percentuais representam uma mudança concreta na rotina de professores e alunos. Agência de Notícias do Acre

Os laboratórios de informática acompanham esse avanço. Os números da SEE mostram que em 2019 não havia laboratórios ativos nas escolas estaduais. Em 2026, eles já somam 90 unidades em atividade. Além disso, o governo distribuiu tablets aos estudantes de diversas unidades, levando muitos jovens a ter contato com um computador pela primeira vez. Em escolas de tempo integral como a Pedro Martinello, no bairro Montanhês de Rio Branco, esse processo já é parte do cotidiano: alunos usam os dispositivos para acessar plataformas educacionais, se cadastrar no Enem e desenvolver competências digitais dentro da própria grade curricular. Agência de Notícias do Acre

A expansão também chega a municípios de acesso extremamente difícil. O governo do Acre levou internet via satélite a Santa Rosa do Purus e Marechal Thaumaturgo, conectando o colégio Estadual Padre Paolino Baldassari e o colégio Estadual Elvira Ferreira Gomes. Na escola Elvira Ferreira Gomes, foram entregues também 210 tablets para os alunos do ensino médio. Em alguns casos, as equipes técnicas precisam se deslocar por mais de um dia de barco para realizar as instalações, uma logística que não tem paralelo em nenhum outro estado do país. Agência de Notícias do Acre

O que ainda falta para chegar a 100% e quais são os maiores obstáculos

Apesar dos avanços, a meta de conectividade total até o final de 2026 ainda impõe desafios concretos. Das 411 escolas rurais e indígenas do estado, 186 já estavam conectadas até o início do ano, restando ainda uma parcela significativa a ser atendida. A expansão dessa conexão é viabilizada por meio de contratos firmados pela SEE e pela utilização de fibras ópticas e tecnologia via satélite, além da adesão a programas do governo federal voltados à conectividade educacional. Agência de Notícias do Acre

O secretário de Educação, Aberson Carvalho, reconhece a dimensão do desafio. Segundo ele, a realidade amazônica impõe obstáculos que vão além da tecnologia: grandes distâncias, rios que ainda são a principal via de transporte em muitas regiões e alto custo de manutenção da infraestrutura tecnológica tornam a conectividade das unidades indígenas e do campo ainda mais complexa. Mesmo assim, a secretaria mantém a meta ousada de universalização para este ano, com estratégias que combinam satélite para as áreas mais remotas e fibra óptica para as unidades urbanas e do interior com acesso terrestre. Agência de Notícias do Acre

Além da conectividade das escolas rurais e indígenas, o governo do Acre, por meio da SEE, também planeja garantir 33 laboratórios de informática para as escolas integrais, incluindo as 25 unidades aprovadas para essa modalidade em 2026, com a meta de fechar 100% das escolas de ensino médio com laboratórios ainda este ano. O programa nacional que sustenta parte dessa estrutura é o Programa de Inovação Educação Conectada (PIEC), do Ministério da Educação, ao qual as escolas acreanas precisam aderir cumprindo critérios como ter energia elétrica, matrícula ativa e unidade executora regularizada. Agência de Notícias do Acre

Como a conectividade muda a prática pedagógica dentro das escolas

O impacto da internet nas escolas acreanas não se limita à infraestrutura: ele chega à forma como professores ensinam e como alunos aprendem. O programa incentiva o uso pedagógico das tecnologias digitais em sala de aula, ampliando o acesso dos estudantes a conteúdos educacionais digitais, plataformas de aprendizagem, vídeos, jogos e outras ferramentas de ensino. A estratégia integra a Estratégia Nacional de Escolas Conectadas, que busca universalizar a internet de qualidade nas unidades de ensino e promover equidade e inclusão digital, especialmente em regiões mais vulneráveis. Agência de Notícias do Acre

Os resultados já aparecem em dados concretos. Com a implementação do Pé-de-Meia, que beneficiou 28,9 mil estudantes acreanos em 2025, e o avanço das políticas de conectividade e tempo integral, a taxa de abandono escolar no ensino médio no Acre caiu de 6,6% em 2023 para 5% em 2024. Embora a queda no abandono não seja atribuída exclusivamente à inclusão digital, especialistas apontam que o acesso a ferramentas tecnológicas e a plataformas de ensino contribui diretamente para manter o interesse dos alunos, especialmente em comunidades onde o celular com internet era, até recentemente, o único dispositivo conectado disponível. Ministério da Educação

O MEC investiu R$ 258,6 milhões em infraestrutura da educação básica no Acre entre 2023 e 2027, por meio do Novo PAC, para melhoria e ampliação da infraestrutura da educação básica, incluindo 18 obras de construção ou conclusão de escolas e creches. Esses recursos complementam os investimentos estaduais e demonstram que o avanço tecnológico nas escolas acreanas é fruto de uma combinação entre políticas estaduais e federais que raramente aparecem juntas com tanta intensidade. Ministério da Educação

A meta de conectar 100% das escolas acreanas até o fim de 2026 é, ao mesmo tempo, uma promessa e um teste de capacidade institucional. O Acre já provou que é possível levar internet por barco até o fundo da floresta, conectar escolas indígenas que nunca haviam visto uma rede wifi e montar laboratórios onde antes havia apenas cadeiras. O que está em jogo agora é completar esse processo nas centenas de escolas que ainda esperam pela conexão, sem perder de vista que tecnologia, sozinha, não educa. Ela é ferramenta. O que transforma a vida de um estudante em Marechal Thaumaturgo ou Santa Rosa do Purus é a combinação entre sinal de satélite, professor capacitado e projeto pedagógico pensado para a realidade amazônica. Quando esses três elementos se encontram, a distância entre o interior do Acre e qualquer centro urbano do país começa a diminuir de verdade.

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