Acre registra recorde de internações por síndrome respiratória em 2026 e decreta emergência em saúde

Por Diego Velázquez 9 Min de leitura

Estado acumula 1.625 notificações de SRAG entre janeiro e junho, o maior volume dos últimos três anos, com crianças e idosos no centro do alerta epidemiológico

O Acre vive neste primeiro semestre de 2026 o pior cenário de internações por doenças respiratórias dos últimos três anos. Dados do Boletim Epidemiológico nº 21, divulgado pela Secretaria de Estado de Saúde (Sesacre) em 24 de junho, mostram que o estado acumulou 1.625 notificações de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) entre as semanas epidemiológicas 1 e 23 deste ano. Para se ter dimensão do crescimento, no mesmo período de 2024 foram registrados 1.321 casos, e em 2025, 1.196. É um avanço que colocou a rede hospitalar em situação de pressão contínua, levando o governo do Acre a decretar situação de emergência em saúde pública por meio do Decreto nº 11.901, publicado em edição extra do Diário Oficial em 3 de junho. A medida tem vigência inicial de 90 dias e abre caminho para contratações emergenciais, ampliação de leitos e reforço das equipes médicas em todo o estado.

Diante de um número que só cresce e de hospitais operando no limite, uma pergunta natural surge para qualquer família acreana: o que está por trás dessa escalada de casos, quem corre mais risco e o que o poder público está fazendo para evitar um colapso?

Os vírus responsáveis pela onda de internações

A Sesacre classifica o cenário atual como de forte aceleração das internações por SRAG, impulsionada pela circulação simultânea de vírus respiratórios, especialmente o Vírus Sincicial Respiratório (VSR), o Rinovírus e a Influenza A. Entre esses três agentes, o VSR merece atenção especial, pois está diretamente associado a casos graves em crianças pequenas e em idosos, dois dos grupos com menor capacidade de resistir à progressão da doença para formas mais severas. Deolhonoacre

A combinação de múltiplos vírus circulando ao mesmo tempo é um fator que amplifica o impacto sobre os serviços de saúde. Quando diferentes agentes coexistem num mesmo período, a tendência é que os pronto-socorros recebam simultaneamente pacientes com quadros distintos, todos exigindo atenção especializada. A Fiocruz chegou a recomendar que a população do Acre use máscaras em postos de saúde e em locais fechados com maior aglomeração de pessoas, especialmente crianças, idosos, indígenas e pessoas com comorbidades, que foram orientados a buscar a vacina o quanto antes. A vacinação contra a Influenza segue como uma das principais ferramentas disponíveis para reduzir a gravidade dos casos e o risco de morte. Agência Brasil

Embora o número de internações esteja em alta, há um dado que merece ser destacado com equilíbrio: apesar do aumento nas internações, o número de óbitos apresentou queda significativa. Em 2026, foram registradas 26 mortes até a semana 16, redução de 60,6% em relação a 2024 e de 58% em comparação a 2025. Ainda assim, as mortes seguem concentradas em crianças, o que torna o cenário longe de tranquilizador. AC 24 Horas

Quem mais sofre: crianças e idosos no centro do alerta

As crianças de 2 a 4 anos lideram os casos graves, com 343 internações, seguidas pelas de 5 a 9 anos, com 304. Entre os idosos com 60 anos ou mais foram registradas 305 internações, enquanto os menores de dois anos somaram 248 casos. Segundo a Sesacre, os extremos de idade continuam sendo os grupos biologicamente mais vulneráveis à evolução para formas graves da doença. AC 24 Horas

Geograficamente, a pressão maior está concentrada nos maiores centros populacionais do estado. Rio Branco concentra o maior número de notificações, com 669 casos, o equivalente a mais de 41% do total registrado no estado. Cruzeiro do Sul aparece em seguida, com 243 ocorrências. Outros municípios como Feijó e Marechal Thaumaturgo também registraram volumes relevantes de casos no período analisado, segundo o boletim da Sesacre. Isso significa que a crise não está restrita à capital, mas alcança o interior mais distante, onde a infraestrutura hospitalar é mais limitada e o deslocamento de pacientes graves representa um risco adicional. Deolhonoacre

O Hospital Infantil Iolanda Costa e Silva, em Rio Branco, permanece como a unidade mais pressionada pela crise respiratória, com 430 notificações de SRAG em 2026, o maior número entre todos os hospitais do estado. Em seguida aparecem o Hospital Regional do Juruá, em Cruzeiro do Sul, com 358 notificações, e o Hospital Geral de Clínicas de Rio Branco (HUERB), com 169. A Fundhacre e a Pronto Clínica também aparecem na lista dos hospitais com maior demanda, completando um quadro de pressão distribuída por toda a rede de referência acreana. AC 24 Horas

O que o governo do Acre está fazendo para conter a crise

O decreto de emergência publicado em junho foi a resposta mais concreta do governo estadual ao avanço do cenário. Com o decreto, a Sesacre passa a ter mecanismos legais para agilizar processos administrativos relacionados ao enfrentamento da emergência, incluindo a contratação de serviços, aquisição de insumos, ampliação da assistência e adoção de medidas necessárias para garantir o funcionamento da rede de saúde. O secretário de Saúde, José Bestene, afirmou que a medida não representa motivo para pânico, mas é uma ferramenta administrativa indispensável para que o estado possa agir com mais rapidez. Agência de Notícias do Acre

A diretora de Atenção Primária e Vigilância em Saúde da Sesacre, Suanne Souza, explicou que a estratégia inclui fortalecer a parceria com os 22 municípios acreanos por meio da atenção primária, buscando garantir que pacientes com sintomas respiratórios recebam atendimento logo nos primeiros sinais da doença, reduzindo o risco de agravamento dos quadros clínicos e a necessidade de internações hospitalares. A Sesacre também sinalizou que busca apoio junto ao Ministério da Saúde para ampliar a capacidade de enfrentamento da crise no estado. Agência de Notícias do Acre

Diante do cenário, a Sesacre recomenda ampliar o monitoramento dos leitos clínicos e de UTI pediátrica, reforçar a vigilância epidemiológica, intensificar a vacinação dos grupos prioritários e fortalecer o atendimento nas unidades do interior, com o objetivo de reduzir a necessidade de transferências e aliviar a pressão sobre o Hospital Infantil Iolanda Costa e Silva e o Hospital Regional do Juruá, referências no tratamento de casos graves de síndrome respiratória no Acre. Deolhonoacre

Os números do primeiro semestre de 2026 revelam que o Acre enfrenta uma crise real, que exige tanto resposta institucional quanto atenção individual de cada família. O aumento de 1.625 internações por SRAG, num estado com limitações conhecidas de infraestrutura hospitalar, não é uma estatística distante: ele representa crianças e idosos internados, famílias deslocadas para buscar atendimento em referências distantes e equipes de saúde trabalhando no limite. Vacinar os grupos prioritários, buscar atendimento ao primeiro sinal de agravamento respiratório e seguir as orientações da Sesacre são atitudes que fazem diferença real nesse cenário. O monitoramento contínuo da Sesacre e o decreto de emergência indicam que o poder público está ciente da gravidade, mas o controle da onda depende também da participação ativa da população.

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