Os problemas mais custosos no mercado de NPL raramente surgem durante a recuperação dos créditos. Felipe Rassi, especialista no mercado financeiro, ao analisar operações de crédito estressado, costuma apontar que elas surgem antes, na etapa em que a carteira deveria ter sido examinada com rigor e não foi. A due diligence mal executada não aparece como erro imediato. Ela aparece semanas ou meses depois, quando o comprador começa a trabalhar a carteira e descobre que uma parte relevante do que comprou não tem a exigibilidade que parecia ter no momento da oferta.
Para entender como esse processo falha na prática e o que poderia ter sido identificado antes, vale acompanhar o que acontece quando cada etapa da due diligence é tratada como formalidade, e não como análise real. É esse percurso que os tópicos a seguir reconstroem em detalhe.
Como uma carteira com números atrativos pode esconder riscos que a planilha não mostra?
A planilha de uma carteira de NPL apresenta um retrato estático de informações: valor de face, tempo de atraso, tipo de garantia e perfil geral dos devedores. Esses dados são o ponto de partida da análise, mas não são a análise em si. O problema começa quando o comprador trata esses números como suficientes para fundamentar uma oferta, sem verificar se o que está descrito na planilha corresponde ao que existe de fato nos documentos e na realidade jurídica de cada operação.
Um exemplo concreto desse descompasso acontece com carteiras que apresentam alto percentual de créditos com garantia real. Olhando apenas para a planilha, o comprador vê uma carteira com perfil de risco aparentemente mais controlado, porque a presença de garantia sugere uma alternativa de recuperação além do pagamento voluntário do devedor. O que a planilha não mostra é quantas dessas garantias estão registradas corretamente, em que estado os bens se encontram atualmente e se há outros credores com prioridade sobre esses mesmos bens. Cada um desses fatores pode transformar uma garantia aparentemente sólida em um ativo de valor prático muito inferior ao estimado.
O que acontece quando a amostragem documental é feita de forma insuficiente?
A due diligence documental de uma carteira de NPL raramente examina cada contrato individualmente, especialmente em lotes com grande número de operações. O método mais comum é a análise por amostragem: um percentual representativo dos contratos é examinado em detalhe, e os resultados são extrapolados para o restante da carteira. Esse método é razoável quando a amostra é bem definida e suficientemente ampla, mas se torna um risco quando a amostragem é pequena demais ou não representa adequadamente a diversidade de perfis dentro da carteira.

Na perspectiva de Felipe Rassi, uma amostragem mal dimensionada é uma das formas mais comuns de due diligence que parece ter sido feita, mas que, na prática, não gerou informação suficiente para embasar uma decisão. Se a carteira tem concentrações específicas de crédito em determinadas regiões, tipos de garantia ou faixas de atraso, a amostragem precisa refletir essa heterogeneidade. Uma amostra que examina apenas os contratos mais recentes de uma carteira que tem concentração relevante em créditos antigos vai gerar uma visão distorcida da qualidade real do lote como um todo.
Dentre esse panorama, uma pergunta ganha destaque: o que é due diligence em carteiras de NPL? Due diligence em carteiras de NPL é o processo de análise documental, jurídica e financeira realizado antes da aquisição de créditos inadimplidos, com o objetivo de verificar a exigibilidade dos créditos, a qualidade das garantias e a integridade da cadeia de cessão de cada operação.
Como problemas na cadeia de cessão aparecem só depois que a compra está concluída?
A cadeia de cessão de um crédito é o conjunto de documentos que comprova todas as transferências de titularidade, desde a origem até o comprador atual. Quando essa cadeia tem falhas, como ausência de instrumento formal em alguma etapa anterior ou divergência entre o valor cedido em diferentes documentos, o comprador pode se ver na posição de deter um crédito cujo histórico de transferência não está completo o suficiente para ser sustentado judicialmente.
Esse tipo de problema costuma aparecer com mais frequência em carteiras que já passaram por múltiplas cessões anteriores, porque cada transferência adicional é uma oportunidade para que um documento esteja ausente ou mal formalizado. Felipe Rassi nota que compradores que não verificam a integridade completa da cadeia de cessão antes de fechar a operação assumem um risco que não está precificado na oferta original: o risco de descobrir, já com a carteira em mãos, que uma parte dos créditos adquiridos não pode ser cobrada judicialmente sem antes resolver pendências documentais que consomem tempo e recursos adicionais.
De que forma a ausência de notificação ao devedor compromete a recuperação depois da compra?
A notificação do devedor sobre a cessão do crédito é uma exigência legal que tem peso direto na exigibilidade da operação. Quando essa notificação não foi realizada em cessões anteriores, o devedor pode contestar a cobrança do novo credor, alegando desconhecimento da transferência, o que cria um obstáculo jurídico que precisa ser resolvido antes que a recuperação avance. Em carteiras com grande volume de operações, identificar quais devedores foram notificados e quais não foram é uma tarefa que deveria fazer parte da due diligence, mas que frequentemente é deixada de lado por consumir tempo considerável.
Felipe Rassi, especialista jurídico no mercado de NPL, avalia que esse ponto específico é um dos mais subestimados na análise de carteiras de crédito inadimplido. A notificação parece um detalhe burocrático quando a carteira está sendo avaliada, mas se transforma em um obstáculo concreto quando a equipe de recuperação começa a trabalhar os créditos e encontra contestações que poderiam ter sido antecipadas com uma verificação adequada ainda na fase de due diligence.
O que uma due diligence bem executada muda na decisão de compra e no preço oferecido?
Uma due diligence completa não serve apenas para evitar surpresas depois da compra. Ela também muda a qualidade da oferta que o comprador consegue fazer antes de fechar a operação. Quando o comprador tem clareza sobre quais créditos dentro de uma carteira são plenamente exigíveis, quais têm fragilidades documentais que precisarão ser resolvidas e quais apresentam riscos jurídicos que tornam a recuperação incerta, ele consegue formular uma oferta que reflete com precisão o valor real daquele lote, e não uma estimativa baseada em premissas que a documentação não sustenta.
Felipe Rassi frisa que essa precisão na oferta é uma vantagem competitiva real no mercado de NPL, não apenas uma medida de cautela. Compradores que chegam a uma negociação com análise documental detalhada conseguem justificar suas ofertas com base em evidências concretas, o que fortalece sua posição na negociação e reduz o risco de pagar por um ativo cujo valor real só vai aparecer, ou desaparecer, depois que o contrato estiver assinado. A due diligence bem feita não é um custo da operação: é o que torna a operação tecnicamente sustentável desde o primeiro dia.